Realizei entrevistas com alunos negros da minha escola, conforme solicitação de uma atividade na interdisciplina de QERE:SH, com a pergunta: "Como você se sente como aluno (a) negro (a) nesta escola?" e o resultado foi o seguinte:
Minhas entrevistas foram feitas com três alunos negros da 5ª série, em uma sala destinada aos estudos de recuperação, a qual no momento da entrevista não estava sendo ocupada por nenhum outro aluno.
Ao ter comunicado a equipe diretiva e a professora de turma, convidei, marquei horários com os três alunos, individualmente.
Sentamo-nos, já tinha preparado o ambiente, fiz a pergunta “Como você se sente como aluno (a) negro (a) nesta escola?”
Não tenho alunos negros na minha turma de 4ª série (manhã), aliás, tenho sim, porém se fosse chamar para fazer as entrevistas e comentar que seria com pessoas da raça negra, meus alunos ficariam magoados e ofendidos, pois observo pelas atitudes e falas que não se consideram da raça negra e o mais importante fazem questão de dizer o contrário em qualquer situação neste sentido. Optei em realizar as entrevistas com alunos da 5ª série, inclusive uma menina que tinha sido minha aluna nos dois últimos dois anos (3ª e 4ª série). Com ela a conversa fluiu naturalmente e bem confortável, tanto pra ela, quanto pra mim. A aluna B. S., 13 anos, relatou que se sente “normal” e às vezes até diferente, porém diferente pra melhor, nunca se sentiu inferior ou mesmo sofreu algum tipo de discriminação na escola por parte dos colegas ou professores por sua cor ou raça. Fez esse comentário por que, segundo ela, já presenciou discriminação com outros colegas. Continuou dizendo que se acha bonita e vê que os colegas também a acham (é realmente muito bonita mesmo). O interessante que esta menina o pai é presidiário, a mãe recebeu uma indenização do governo por parte desta prisão e atualmente vivem numa situação privilegiada em relação aos outros alunos da escola, talvez esse possa ser o motivo de se achar diferente para melhor, conforme ela mesma afirmou.
Ela é bastante vaidosa, se veste muito bem, usa material escolar diferenciado dos demais. Sinto que é feliz tanto pela vida que tem e pela cor, inclusive fala com orgulho de sua raça. É bem resolvida e falante.
O segundo entrevistado, J. P., 15 anos, fora da idade para a série, já não teve o mesmo clima. Observei que o aluno teve certo desconforto para falar sobre o assunto, fugindo o olhar, respondendo bem demorado, um tanto vago e pensativo.
Depois de pensar bastante, como eu não queria interferir na resposta, deixei que pensasse, talvez não tivesse entendido muito bem, o que respondeu foi que se sente “normal”, esta afirmativa de dizer que são “normais”, foi o que mais me chamou atenção, foi por parte de todos os entrevistados a mesma fala. Porém respondeu que nunca sofreu nenhum tipo de discriminação por parte dos colegas ou professores desta escola. E que gosta de ser negro, por que às vezes tem garotas bonitas, brancas e que gostam de meninos negros.
O terceiro, M. V., 14 anos, igualmente como os outros, afirmou que se sente “normal” sendo negro, que nunca sofreu qualquer discriminação na escola e que tem vários amigos, mas já ouviu e presenciou situação bem desagradável com outros colegas negros, no qual, deixou-o bastante incomodado. Quando estava falando isto, lembrou de uma situação que acontecera com ele ano passado na escola. Neste momento sua expressão modificou-se, então disse que na ocasião tinha ficado muito magoado e com muita raiva, até chorou e renegou sua origem, foi chamado de negro sujo. Gostaria de ter nascido branco, por que o que ouviu do colega foi bem agressivo pra ele. Teve vontade de bater no colega, e ainda por cima, era seu grande amigo, certamente o que mais machucou tenha sido isto, ter ouvido da boca do seu amigo, magoou muito insistiu. Só não o fez por que estava na escola.
Após nossas conversas, então refletindo e depois de observar os alunos da raça negra em geral na escola, percebi que de certa forma ainda existe o preconceito e estão bastante acentuados, mesmo os próprios entrevistados afirmando que não sofreram nenhuma discriminação, eles mesmos são os preconceituosos, não só por parte dos que se consideram brancos.
Ainda, pelo menos uma grande maioria, não está resolvido e contente com a sua raça.
Hamacheck (1979) diz que a maioria dos alunos que se evade é por não conseguir tolerar mais fracassos e os sentimentos de baixas auto-estima e autovalorização.
O processo de baixa auto-estima no aluno negro provém do ambiente sócio histórico, reforçado pelas ações da escola sobre esse sujeito considerado “inadequado”, daí a evasão e a repetência apesar dos esforços da família.
Na maioria das vezes, reflete diretamente na aprendizagem, visto que, não se sentindo importante ou valorizado, a criança negra é estigmatizada e perde o interesse cultural.
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3 comentários:
Olá Elizabete,
Quero iniciar te parabenizando pelo teu blog, gostei muito, e principalmente da forma como tu se apresenta, muita criativa.
É muito interessante a forma como tu captou, através das entrevistas, de como o preconceito está presente entre nós. E ainda, muito importante o gancho que tu fizestes com a fala do autor. Ótimo!
Aproveito para abrir um espaço de diálogo contigo. Como fazer para que exista a aceitação das diferenças etnicas onde há preconceito? Quem é que não está "resolvido" com sua raça? Quem deveria se aceitar? A quem tu estás se referindo, que etnia?
Olá Elizabete,
Quero iniciar te parabenizando pelo teu blog, gostei muito, e principalmente da forma como tu se apresenta, muita criativa.
É muito interessante a forma como tu captou, através das entrevistas, de como o preconceito está presente entre nós. E ainda, muito importante o gancho que tu fizestes com a fala do autor. Ótimo!
Aproveito para abrir um espaço de diálogo contigo. Como fazer para que exista a aceitação das diferenças etnicas onde há preconceito? Quem é que não está "resolvido" com sua raça? Quem deveria se aceitar? A quem tu estás se referindo, que etnia?
Um abraço
Márcia Caetano
Querida aluna Elisabete Souza Neto!
A partir de hoje vou fazer parte dos comentários no seu portfólio.
Seu portfólio é muito interessante, os registros apresentam clareza, objetividade com questionamentos reflexivos. O trabalho de entrevista com os alunos de cor negra foi muito importante, correspondem os subsídios da Interdisciplina Étnico-Racial.
Quanto ás dificuldades no uso da tecnologia é normal, eu também enfrentei essa dificuldade. Podemos nos sentir privilegiadas de termos essa oportunidade você como aluna, eu com tutora.
Toda minha formação universitária foi no método professor, aluna e caderno. Quando fiz o curso para Tutora, daí que entre no mundo da tecnologia, trabalhava no computador superficialmente, hoje ainda não sei tudo de Internet, é um campo muito amplo. Quando fiz Curso de Tutora já estava me aposentado. Posso adiantar que nunca me arrependi de ter me lançado atrás de novos conhecimentos. Não podemos ficar na acomodação, precisamos acompanhar os nossos filhos e os netos e o mundo.
Bem me desculpa se escrevi coisa que não sei se vai lhe agradar, pois não lhe conheço.
Obrigada por suas postagens!
Desejo sucesso empreendedor na sua vida familiar, profissional e acadêmica.
Um abr@ço virtual,
Professora Geny Schwartz da Silva
Tutora seminário Integrador VI
PEAD/FACED/UFRGS
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